3/24/2017

Resenha: O Pagador de Promessas

O Pagador de Promessas é um livro que pode mexer com o emocional, não só por causa da história em geral, mas também pela forma como são retratados os personagens. Dias Gomes conseguiu através dessa peça colocar na mesa o reflexo da sociedade e de como ela pode ser destrutiva, com ou sem intenção.
Imagem: Bruna Domingos
Titulo: O Pagador de Promessas
Autor: Dias Gomes
Editora Bertrand Brasil
Páginas: 173
51ª edição

Zé do Burro, um homem trabalhador, honesto, de bom coração, fiel na sua religião e na palavra. Ele tem uma missão e não há nada que o faça mudar de ideia, nem mesmo os claros sinais de como tudo isso pode acabar. 

Zé andou sessenta léguas com uma cruz nas costas para salvar seu melhor amigo, sua promessa era levar a pesada cruz até uma igreja de Santa Barbara se o milagre que tanto desejava acontecesse. 

Pois bem, quem era seu melhor amigo? Nicolau.

“O senhor não conhece Nicolau, por isso… é um burro com alma de gente”
Nicolau, o burro, sofreu um grave acidente durante um temporal e não estava conseguindo se recuperar, foi então que Zé fez uma promessa a Iansã, orixá dos ventos, dos raios e tempestades. Se a santa curasse o amigo, Zé carregaria uma cruz até uma igreja de Santa Barbara e entregaria no altar. 

Mas a promessa é para Iansã, e a entrega é em uma igreja de Santa Barbara? O que tem a ver? É simples, na época da escravidão algumas regiões brasileiras receberam influências de cultos africanos. Por conta da intolerância religiosa dos senhores, os escravos cultuavam seus santos nagôs utilizando os nomes dos santos católicos. Oxalá, por exemplo, foi nomeado como Senhor do Bonfim, Oxasse é São Jorge, Iansã recebeu o nome de Santa Barbara, e por aí vai. 

No cenário de uma Bahia colonial, Zé juntamente com Rosa, sua mulher, encontram a velha igreja para cumprir a promessa. Mas não será fácil, o principal empecilho é o fato de Zé ter feito sua promessa num culto de Iansã no candomblé, o poder religioso não só vai oprimir nosso personagem como o deixará mentalmente abatido.

Padre Olavo, personagem que deveria acolher, é quem mais prejudica o pobre fiel por conta da intolerância religiosa. Ele não aceita que Iansã e Santa Barbara sejam as mesmas, e alega que Zé precisa se arrepender do pecado de suas "práticas satânicas" para poder entrar na igreja com a cruz. 

Rosa, a esposa, também mostra caráter duvidoso em várias ocasiões, causando ainda mais angústia em Zé do Burro. Quando toda cidade fica sabendo da história, as coisas começam a desandar mais e mais. É aí que vemos um belo exemplo de como, indiretamente, as pessoas ao nosso redor podem contribuir para deixar  péssima uma situação ruim.

Rosa não defendeu o marido como deveria, Padre Olavo não acolheu como deveria, o Repórter não ouviu como deveria, Bonitão, personagem de má índole, não agiu honestamente como deveria, nenhum personagem entendeu a situação como deveria.

O Pagador de Promessas mostra como a realidade pode ser esmagadora, e nos lembra que todo santo dia temos um Padre Olavo para enfrentar, uma sociedade preconceituosa e sem empatia. As pessoas precisam respeitar mais e aceitar a crença, orientação e escolha do próximo.

Bruna Domingos

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